A Clockwork Orange (Laranja Mecânica) – Crítica

Questionamo-nos ao longo de todo o filme. Repleto de sátiras. Todo o filme é um retrato ousado do sistema. Temos uma representação completamente extravagante, temos personagens construídas a partir do fundo de qualquer alma, do fundo do que é a sociedade num contexto intemporal.

Temos o prazer ou desprazer de conhecer Alex… Acho que todos temos um em comum. Um jovem egoísta, hipócrita, que não reprime os seus instintos básicos como a violência. Sem qualquer ressentimento, sem qualquer pudor pelo próximo, é então líder de um gang sem fins lucrativos. Todo o lucro é diversão usando-se de qualquer um que lhes seja vulnerável. Malcolm McDowell tem o papel do nosso anti-herói, que confessa ter sido aproveitado por Kubrik apenas do seu talento, mas menos mal para nós que herdámos a sua perfeita representação. É também o único actor do filme a ter espaço para brilhar, fazendo-o muito bem, passando pelos vários estados do personagem. Talvez associemos Laranja mecânica a Kubrik – o visionário, pelo olhar intimidador do seu protagonista, típico dos seus filmes, mas nunca tão bem interpretado até aqui. Incoscientemente o espectador é remetido para o constante cínismo do personagem e ninguém o poderia dirigir melhor que este homem que ofereceu como animal de estimação a Alex, uma cobra… O animal de que Malcom tem fobia.

O realizador torna tudo irónico durante todo o filme, não tornando ao acaso o facto de passarmos a ouvir a inocente “singin in the rain” de agora em diante, de uma maneira mais demente.

Uma cidade do século XXI mostra um futuro sombrio, onde temos também uma sociedade que não se constrói ao longo do filme. Nós já a conhecemos, mesmo se virmos o filme actualmente – não superficialmente, mas pelos valores éticos que são levantados ao longo de mais de duas horas, que são os mesmos valores com que nos deparamos na nossa sociedade. E quando Alex é capturado pela policia e julgado, nós julgamos o seu livre arbítrio. É aqui que se concentra a maior intriga do filme, uma das maiores questões jamais tão bem concebidas na história do cinema:
Até que ponto se pode ceder a liberdade em prol de um bem maior? Um dos personagens afirma: “Quando um homem não pode escolher, deixa de ser homem”.

De um lado uma sociedade que usa Alex para uma inovadora experiência rumo à “cura” de delinquentes (não esquecer o contexto histórico do lado negro norte-americano). Do outro alguém que fica sem escolha para os seus actos. E ainda a resposta dos que ficaram com cicatrizes, deste agora mártir, é tão cruel ou pior, do que foram os seus actos em liberdade.

Um final que é um resumo do que não pode entrar em maior decandência moral, a imagem em A Clockwork Orange é uma metáfora ao tipo de cultura na qual Kubrik previu que viveríamos. Mas Kubrik não me deixa a mim esta interpretação, deixou o final em aberto de todas as questões.

E há quem diga que esta obra perde pela sua fraca fotografia. Ausência de objectos em cena, cores extravagantes, é o que na minha opinião foi uma escolha necessária ao resultado final, que é o que também, para mim mais interessa, o que o espectador sente e não o que vê de belo, num filme como este.
PS: Todos sabem que não sou apreciador de filmes com orçamentos milionários de Hollywood e este clássico custou apenas 2 milhões de dólares.

É por isso que Laranja Mecânica possui um 9,5/10 na nossa escala. Obrigado Stanley Kubrik

One thought on “A Clockwork Orange (Laranja Mecânica) – Crítica

  1. Noeme diz:

    No meu top 10! Eu sou Alex, todos nós somos Alex no fundo. Manipulados, mecânicos, “nós mesmos”.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: