Magnolia – Crítica

O filme começa com um prólogo genialmente criativo de 15 minutos que prepara o espectador para o mundo onde vai ser induzido. Depois disso são 3 horas de filme que representam um só dia de várias personagens. E não param de acontecer coisas. Não há quebras na narrativa. Não há um segundo de monotonia. Hora e meia de construção de personagens, outra metade do filme o seu desmoronamento. Situamo-nos completamente na intriga, devido á preocupação do guião em dar-nos a conhecer as personagens. E não é fácil porque são 9 personagens e 9 histórias paralelas que se interligam entre si num dia aparentemente normal.

É por termos tantas intrigas, que não há uma linha condutora nesta narrativa. Embora linear, não há um herói com um objectivo. Há muitas personagens com vidas diferentes que desencadeiam um enrolar de situações que constroem Magnólia. Todas elas com igual peso na história. Todas elas acompanhadas em paralelo. E um filme de três horas, com tanta complexidade, tantas intrigas, um impasse tão grande no desenrolar da acção que parece não desenvolver… Como pode cativar tanto um espectador?

Paul Thomas Anderson em 1999 era um cineasta inteligente. Capaz de resolver um argumento deste calibre com muita criatividade. A maneira de tornar isto atractivo e não monótono são os rápidos movimentos de câmara, os extensos travellings, os cortes bruscos entre as cenas que não nos deixam respirar… E histórias que são contadas de forma alternada, com cenas que duram escassos minutos. Dão uma intensidade que nos aproxima dos actores, assim como os zooms. Uma banda sonora sempre a acompanhar e a combinar com o estilo do filme. E até isto serve para nos aproximar-mos dos actores, quando estes também interpretam estrofes de Wise Up.

Este realizador para além de excelente argumentista, tem ainda uma capacidade enorme de espremer tudo dos seus actores. E quem vê este filme mais que uma vez, tem a oportunidade de absorver muito mais do que uma visão superficial. As temáticas são exploradas em todas as suas vertentes e o principal responsável por isso é a direcção de actores. Todos eles têm espaço em cena suficiente para a intensidade requerida e é por isso que conhecemos Tom Cruise num papel secundário fabuloso. Num papel ousado de machista, vemos o cair do personagem através de um grande jogo de olhares, na cena da entrevista após os seus ensinamentos, acerca da arte de bem seduzir.

O realizador conseguiu por no circuito comercial de Hollywood um filme amargo, onde personagens comuns trazem consigo histórias inacabadas, acompanhadas de  arrependimentos do passado. Com várias referências que podem não agradar a todos, é oficialmente uma crítica à sociedade americana.

O espectador gosta de ser surpreendido. E embora o argumento seja de uma complexidade fantástica, não temos tempo para olhar para o lado. É um conjunto de acontecimentos com enorme peso para a acção a um ritmo alucinante, que nos faz ser bombardeados com diferentes mensagens e simbologias metaforizadas, ao mesmo tempo que envolvidos e presos ao ecrã. Merece ser visto mais que uma vez, por Pedro Serra, Magnólia é um filme de 8.1

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5 thoughts on “Magnolia – Crítica

  1. Eu gosto de ver detalhes nos filmes. Como sou escritora não consigo deixar de descrever as cenas.
    Uma das coisas em que reparei são os óculos do policial e do enfermeiro, acho que Paul Thomas Anderson tinha um certo fetiche por óculos;
    O lençol na janela cobrindo o sol;
    A quantidade enorme de cães para cuidar da solidão de Earl;
    O desespero de Linda , a forma como ela fala cheia de gírias mesmo tendo uma voz tão doce;
    A crise existencial dos personagens é visceral;
    A forma como Frank faz seu discurso indicando os capítulos de seus livros…..rsrsrsrs… ele é como esses caras da autoajuda que dizem: comprem meu livro você vai mudar sua vida……rsrsrssr
    O modo como Earl fala que devemos nos arrepender, mesmo a sociedade dizendo que não;
    A maneira como Donnie procura fazer as coisas certas e ser amado. mas não consegue;
    Bem, acho que fui um pouco metódica, da próxima vez tentarei ser mais poética…rsrsrs
    Mas a chuva de sapos foi o que mais me intrigou.

  2. João diz:

    Uma das cenas mais incríveis é logo após “Wise Up”, música que eles cantam quando a chuva está pesada (a vida está difícil), onde a chuva finalmente acaba e uma rua escurecida começa a se clarear, iluminando o caminho a se seguir, mudando o farol vermelho para o farol amarelo. É incrível como uma única cena consegue nos dizer o que irá acontecer a seguir, como eles irão dar a volta por cima.

  3. Ruan Rocha Batista diz:

    Eu juro que não achei em nenhum momento do filme a menção de que Earl (Jason Robards) era um produtor televisivo. Alguém pode me dizer em qual parte do filme essa informação está? Obrigado 😦

    • A parte do filme que mostra isso é logo depois em que o Jim perde o revólver e fica implorando a Deus para encontrá-lo, quando corta a cena mostra a Claudia chorando enquanto assiste a tv e na tela aparece os créditos do programa do pai dela que tinha acabado naquele momento e bem no final dos créditos aparece na tv “A Big Earl Partridge Production”, deixando claro que o Earl era um produtor televisivo

    • Oreste Inácio diz:

      Acabei de ver o filme. Na parte em que sobe os créditos do programa de tv aparece o nome do Earl

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